Que mundo estranho esse o nosso...
Nascemos sozinhos e desde a tenra infância
Aprendemos que temos que se socializar com nossos semelhantes
Desde cedo aprendemos que,
Mesmo sentindo que estamos sozinhos no mundo
Sabemos que o mundo está cheio de seres solitários
Que aprenderam, também desde cedo,
Que é mais fácil pra nós, seres solitários,
Suportar nossa apavorante insignificância diante do universo
Vivendo em sociedade e tendo a ilusão
De que não estamos assim tão sós...
Aprendemos as convenções sociais de nossos pais
Como se isso fosse a única realidade possível
Aprendemos que temos nosso “lugar no mundo”
Que o mundo é bom e justo com aqueles que também o são...
Mas daí chega a adolescência
Hormônios em brasa, ideais que fervilham em nossos cérebros
E nos damos conta de que esse mundo não é tão justo assim
Aprendemos que não basta sermos “nós mesmos”...
Para se ajustar à sociedade temos de ser hipócritas às vezes
Deixarmos um pouco de lado nossas mais profundas “verdades”
Para que sejamos aceitos por nosso “grupo social”.
Depois disso vem a pior parte, o amor...
Procuramos desesperadamente nossa cara metade
Afim de que ela, que teoricamente seria nosso complemento da alma,
Possa enfim aplacar a solidão que sempre sentimos durante a vida.
E assim que a encontramos ficamos extasiados pelo novo sentimento,
Esquecemo-nos das lições que aprendemos na adolescência
De que contos de fadas não existem
E quebramos as barreiras que nos separavam do restante do mundo
Afim de que nosso amor possa adentrar em nosso mundo único
E assim ficamos desguarnecidos e propensos a conhecer outro sentimento: decepção...
Decepção por não sermos correspondidos em nosso novo sentimento,
E se, por uma incrível sorte, houver reciprocidade,
Sentimos que não é com a intensidade que gostaríamos que fosse
E assim voltamos novamente ao estado inicial, sozinhos no mundo.
Porém agora sem nossas defesas, que foram destruídas.
Lembramo-nos de tudo que lemos a respeito desse sentimento de solidão
De como fomos idiotas em pensar que conosco seria diferente
E sentimos raiva de nós mesmos por termos acreditado nessa ilusão,
Por termos nos entregado da maneira que o fizemos
E percebemos que o pior que podíamos ter feito
Era ter quebrado nossa barreira de proteção do mundo
Pois agora o mundo se tornou ainda mais ameaçador do que antes
E o sentimos com uma intensidade de gelar os ossos.
Aos poucos vamos reconstruindo nossas defesas
Dessa vez um pouco mais forte com o acréscimo de nossa experiência
E enquanto fazemos isso sentimos que estamos sendo vigiados
E começamos a ouvir os sussurros de nossa morte se aproximando
E percebemos que se hesitarmos ela nos tocará e tudo terá chegado ao fim.
Se a tristeza tiver se abatido sobre nós
Nos resignamos e deixamos ela chegar cada vez mais perto
Tornamo-nos auto-destrutivos.
Mas logo percebemos o quão idiota seria se entregar a ela assim tão facilmente
E nos agarramos a tudo que possa ao menos aplacar essa tristeza
E ficamos assim até que consigamos refazer nossas defesas
Oscilando entre e resignação perante a morte
E a esperança de poder se refazer e continuar nosso caminho.
Até que chega o grande dia
O dia em que conseguimos retornar ao estado anterior à quebra da barreira
E sentimo-nos mais fortes do que antes
Mas ainda assim o sentimento de solidão continua lá,
Impregnado em nossa alma.
Daí percebemos, com todas as células do corpo, que somos seres solitários...
Que nascemos, vivemos e morreremos sós...
E que a única coisa a fazer é seguir em frente
Seguir fugindo de nossa caçadora implacável
Até que chegue o dia em que ela nos tocará.
E voltaremos a fazer parte do todo, ou como queiram chamar a força motriz do universo,
Aí sim, esse sentimento que nos acompanhou durante toda a existência, não mais existe
Pois agora somos o todo e ao mesmo tempo o nada.
Fazemos parte do todo, porém não somos mais seres únicos
E nos lembraremos da oportunidade única que tivemos
De ter aplacado um pouco a terrível solidão quando conhecemos nosso grande amor
De tudo que poderia ter sido diferente e muito mais divertido se fosse feito a dois
Dois seres solitários, é verdade, porém complementares
Dois solitários que caminhariam juntos numa mesma direção
A fugir da vil caçadora.
Até que chega o dia em que nosso grande amor também venha a fazer parte desse todo
E aí sim poderemos nos extasiar em sermos um finalmente
Fazendo parte do todo, é verdade, mas nossas almas poderão se tornar uma só
E aí sim saberemos o que é isso a que chamam felicidade.